O Pensamento Psicolgico em Scrates, Plato e Aristteles
partir do pensamento pr-socrtico surge uma tnica dirigida ao sujeito-pensante, separado
do mundo material e que busca pontos de apoio na razo, na percepo e na observao.
O sculo V a.C. deixou sua marca definitiva na evoluo do pensamento da humanidade, 
pois  o sculo no qual ocorre uma reformulao da poltica ateniense, as artes so 
incentivadas por meio da escultura, da literatura e do teatro e as relaes sociais esto em 
processo de transfomao. Esse  o sculo que presencia o nascimento da Filosofia, 
momento inexoravelmente ligado  personalidade de Scrates.
2.1 Sobre Scrates (470 a.C.-399 a.C.)
Surge com Scrates uma nova maneira de pensar que revoluciona a for ma e o significado 
da busca do conhecimento. Embora no tenha desprezado os mtodos de entendimento 
daqueles que o precederam, ele exercitou a intelectualidade numa direo nova, colocando 
o Homem como o objeto real mente digno de compreenso e de estudo. Para esse filsofo 
no existiria Filo sofia enquanto o ser humano no se voltasse refiexivamente para si 
prprio.
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viveu praticamente na cidade de Atenas,
descreve um carter intrigante e curioso. Dono de uma personalidade forte, Scrates (cujo 
pai, escultor, chamava-se Sofronsio e a me, parteira, Fenareta) parece ter percebido a 
instruo formal caracterstica de seu tempo e, praticamente, ficou conhecido aps seus 45 
anos.
Como soldado, parece ter demonstrado coragem durante as batalhas das quais participou, 
salvando vidas de pessoas importantes como Alcibades (mais tarde um poltico 
importante) e Xenofonte (mais tarde seu bigrafo). Como pensador, usufruiu do 
pensamento de Anaxgoras e Protgoras. Como cidado ateniense, era radicalmente fiel  
sua conscincia social, religiosa e poltica e demonstrou ser bastante independente 
intelectualmente.
Segundo alguns estudiosos, mesmo que suas respostas no tenham
sido totalmente satisfatrias, seu mtodo foi a alavanca para a evoluo
do pensamento filosfico.
Naqueles tempos, muitas questes como a democracia ateniense e a moral vinham sendo 
discutidas pelos jovens de Atenas. Os embries de uma reviso sobre a f nos deuses do 
Olimpo vinham surgindo e, portanto, as bases da moralidade, da tica e das relaes 
humanas sustentadas at ento no respeito s divindades, vagarosamente, vinham sendo 
repensadas, gerando certo nvel de insegurana social, individual e poltica.
Ajuventude preocupava-se com esses ares transformadores e pergun tava a Scrates, entre 
outras coisas, sobre os novos fundamentos para a moral individual e para o governo social. 
Ao pensar, juntamente com os jovens, Scrates promovia o desenvolvimento da 
subjetividade e da crtica, separando o sistema moral da religiosidade e enfatizando a 
conduta moral ancorada na conscincia responsvel. Ele entendia que se fosse possvel 
ensinar ao Homem a ver, clara e inteligentemente, a causa e o resultado de seus atos, talvez 
isso bastasse para que ele trilhasse um caminho bom.
Embora despreocupado com o registro de suas idias e com o acmulo de bens materiais, 
desenvolveu um mtodo de conhecimento, cujo ponto de partida estava localizado na 
necessidade de conscincia da ignorncia. Uma frase de Scrates que com certeza voc j 
conhece s sei que nada sei , exatamente, o incio para a prtica de seu mtodo que se 
divide, didaticamente, em duas partes. A primeira, denominada ironia (em grego
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na formulao de uma seqncia de perguntas
bem articuladas no decorrer do dilogo sobre um tema proposto.
Nessa etapa acontece um processo de desmontagem do pensamento, at o ponto de contato 
com o no-saber, instante que se inicia a segunda parte do mtodo, chamada maiutica 
(em grego significa parto) que consiste no trabalho de dar  luz idias consistentes. 
Vejamos melhor o movimento do mtodo socrtico da seguinte forma: ao afirmar que nada 
sabe, Scrates permite que o interlocutor reveja suas idias e, com muita habilidade, coloca 
em questo suas opinies e certezas. Nesse momento angustiante, acontece o parto das 
idias, em que Scrates, segundo ele mesmo, assume o papel de parteiro.
Segundo Aranha e Martins (1995, p.95), Scrates:
 destri o saber constitudo para reconstru-lo na procura da definio do Conceito. Esse 
processo aparece bem ilustrado nos dilogos relatados por Plato, e  bom lembrar que, no 
final, nem sempre Scrates tem a resposta: ele tambm se pe em busca do Conceito e s 
vezes as discusses no chegam a concluses definitivas {...]. Scrates utiliza o termo 
logos(palavra, conversa), que no sentido filosfico significa razo que se d a algo  ou 
mais propriamente  Conceito.
A busca dos conceitos de coragem, moral, justia, piedade, etc., que so trilhos do 
pensamento socrtico, faz com que o Homem passe a refletir sobre suas atitudes e condutas 
individuais e sociais.  importante lembrar que na pesquisa socrtica encontramos implcita 
uma universalidade de direitos, ou seja, seu mtodo poderia ser aplicado tanto a pessoas 
importan tes na escala social quanto a escravos, colocando em xeque os critrios 
caractersticamente hierrquicos que permeavam a democracia ateniense. Qualquer 
indivduo poderia submeter-se ao exerccio do pensamento e, por tanto, do 
autoconhecimento.
Com essas idias sendo semeadas, ele gerou algum nvel de insegurana
em parte da liderana poltica ateniense, ganhando inimigos. A curiosidade
e influncia que exercia sobre a juventude e sua tendncia a uma nova viso
religiosa no foram aceitas em Atenas e, ento, foi julgado e condenado por
280 x 220 votos. Ele mesmo examinou seu processo e preparou a defesa,
aceitando a pena imposta pelos jurados. Sua defesa  interessantssirna. Indco
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sua leitura, pois nela encontramos, com clareza, a maneira de estruturao e
organizao de seu pensamento.
Durante o ms em que esperou pela execuo da sentena  envene namento por cicuta  
recusou vrios planos de fuga e falou a seus discpulos sobre temas como a imortalidade da 
alma, uma alma que contm os valores que a caracterizam.
A alma, para Scrates,  o ponto de partida da vida e na base de sua constituio esto o 
carter moral e a razo. Por seu mtodo, esses valores so sedimentados, tornando-a 
soberana ao corpo que anima. Para alm do sujeito psicolgico, com suas potencialidades 
de percepo e memria,  pelo mtodo que acontece a possibilidade de o Homem 
aproximar-se verdadeiramente de si mesmo. No processo de descoberta desses valores 
contidos na alma, mediante a razo o Homem adquire firmeza moral, aproximando-se do 
bem.
A personalidade do pensamento socrtico est na racionalizao presente na conduo de 
seu mtodo, racionalizao esta que leva o sujeito a se despir das pseudoverdades que, 
porventura, estejam sustentando sua forma de pensar, determinando equvocos e falsas 
idias que podero ser reestruturados no processo ironia-maiutica de seu mtodo.
Alm de propiciar o impulso do Homem em direo ao conhecimento de si mesmo, a 
psicologia socrtica est ligada  introspeco e  tica que fundamentam o 
comportamento humano, tornando-o conhecido e passvel de reviso.  pelo conhecimento 
do bem localizado em si como virtude conhecida que o homem chegar  felicidade. O 
oposto, ou seja, o mal  fruto da ignorncia.
Scrates aproxima o Homem de si e o pensamento da humanidade passa a inclu-lo como 
participante dos fenmenos e processos naturais, observador e observado, sujeito e objeto, 
parte integrante e dinmica da natureza. Esse passo no desenvolvimento do pensamento 
serviu como respaldo para o surgimento da Psicologia sculos depois.
Sugiro a leitura do livro O julgamento de Scrates, do historiador
Isidor Feinstein Stone, editado pela Companhia das Letras. Voc conhecer
a personalidade de Scrates, seu pensamento, sua intrigante maneira de
entender o mundo e o Homem que nele habita, de uma forma diferente
e crtica.
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Scrates nada registrou e dos escritos de
seus vrios discpulos sobreviveram, ao longo dos tempos, os de Xenofonte e Plato, sendo 
que os escritos de Plato so os responsveis mais diretos pelo Scrates representado na 
imaginao ocidental hoje, talvez por Xenofontej estar fora de Atenas na poca do 
julgamento, enquanto Plato esteve presente at o final, tendo sado da cidade pouco antes 
da execuo e permanecendo fora de Atenas por doze anos. Foi uma poca difcil para o 
crculo socrtico , diz Stone na obra citada.
No h certeza absoluta de que a imagem que o mundo tem de Scrates corresponda  
realidade mas, com certeza, assim como Plato colocou Scrates numa posio de destaque 
na Histria, Scrates forneceu o material para a imortalidade das obras de Plato.
Vale a pena descreve essa interpretao de seu julgamento retirada do
livro O Julgamento de Scrates:
Nenhum outro julgamento,  parte o de Jesus, deixou uma imagem to forte na imaginao 
do homem ocidental quanto o de Scrates. Os dois julgamentos tm muita coisa em 
comum. No dispomos de relatos contemporneos e imparciais de nenhum dos dois [ no 
temos os autos dos processos [ s conhecemos a histria pelos relatos posteriores, escritos 
por discpulos fidelssimos [ Tanto Jesus quanto Scrates imortalizaram-se pelo martrio [ 
se tivesse sido absolvido, se tivesse morrido uma morte tranqila, de velhice, Scrates 
talvez fosse lembrado, agora como uma figura menor e excntrica do mundo ateniense, 
alvo preferido dos poetas cmicos.
2.2 Sobre Plato (428 a.C.-348 aC)
A alma  o que existe em ns de mais divino, como  o que possumos de mais particular. 
Assim pensava Plato, um homem que nasceu na Ilha de Egina e pertenceu a uma famlia 
aristocrtica de Atenas. Sua me (Perictione) fazia parte de uma famlia de polticos e seu 
pai (Aristo) era de linhagem do ltimo rei de Atenas. Descendente de polticos de destaque, 
desenvolveu-se em plena democracia e conheceu de perto a vida poltica
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de sua poca. Era atleta e o nome de Plato era um apelido que significava
ombros largos. Seu verdadeiro nome era Arstocles.
Discpulo de Scrates por nove anos, obviamente foi muito influen ciado pelo modo de 
pensar de seu mestre. Tinha 28 anos quando Scrates morreu e parece ter sofrido bastante, 
pois a forma como Scrates foi morto deixava muito evidente as dificuldades, incoerncias 
e contradies entre as possibilidades do exerccio do pensamento e da realizao deste.
Adoeceu, viajou, foi solicitado a retornar para a poltica, decepcio nou-se novamente com 
ela, passou por vrios ncleos de estudos filosficos em diferentes cidades, acabou 
voltando para Atenas e fundando sua prpria escola de investigao filosfica chamada 
Academia (este nome foi utilizado por estar localizada em um bosque chamado Academos 
 cultuado heri grego). Ali reunia seu grupo de seguidores, composto inclusive por 
algumas mulheres. A Academia  conhecida como a primeira universidade.
Plato deixou suas idias expostas em 36 dilogos apoiados no pensamento socrtico. 
Nesses dilogos encontramos fundamentadas suas posies sobre conhecimento, existncia 
individual, educao, organizao poltica da sociedade, etc.
Segundo alguns estudiosos, a obra de Plato pode ser analisada sob
dois pontos de vista: o que diz respeito ao conhecimento e o que diz respeito
ao poltico-social.
A chamada dimenso epistemolgica de seu texto aponta para duas principais fontes de 
conhecimento  uma referente ao mundo sensvel (dos fenmenos) e outra ao mundo 
inteligvel (das idias). Sua teoria sempre transitar entre estes dois pontos: o conhecimento 
que vem por meio do corpo e o que vem da alma.
Sua teorizao sobre a relao corpo e alma  bastante delicada e pro funda. Como sugesto 
para entrar no universo desse pensamento, leia Teeteto, dilogo no qual Plato apresenta 
uma discusso sobre o conhecimento adqui rido pela sensao e o verdadeiro conhecimento 
fundamentado nas idias.
o corpo  considerado o tmulo da alma. Isto significa que o co nhecimento no est 
restrito s sensaes, ao contrrio, as sensaes embotam o surgimento do verdadeiro 
conhecimento por estarem sempre mudando. Na verdade, o mundo material torna-se 
compreensvel por intermdio da esfera
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das idias, pois o mundo sensvel aos sentidos (o mundo da cor, do som, do
movimento etc.)  ilusrio e no representa o verdadeiro conhecimento.
Acima, ento, desse ilusrio mundo sensvel est o mundo das idias gerais, das essncias 
imutveis que o Homem atinge pela contemplao e pela depurao dos sentidos. As idias 
j existem antes do conhecimento fornecido pelos sentidos.
Para compreendermos melhor essa posio, vamos dizer que a alma humana, antes do 
nascimento (portanto, antes de prender-se ao corpo), j teria entrado em contato com as 
idias. Segundo citao retirada de Os Pensadores  vol. Plato (p. 65):
 esta alma perde contato direto com os arqutipos incorpreos, mas diante de suas cpias 
 os objetos sensveis  pode ir gradativamente recuperando o conhecimento das idias. 
Conhecer seria ento lembrar, reconhecer.
No posso deixar de incluir neste texto que, para Plato, a alma possui a verdade,  o 
princpio de todo movimento, simples, indivisvel. A alma no se compe,  eterna, 
universal e existe totalmente independente da vida do corpo. Na verdade, o que ele prope 
 a chamada doutrina na reminiscncia , para explicar a ligao da alma com as idias, 
teorizando que a partir da experincia sensorial acontece o reconhecimento da vivncia 
imaterial da alma no campo das idias.
Vamos falar um pouco mais sobre a alma de Plato, assim explicada
por Rosenfeld (1993, p.
 constituda de trs partes, assemelhando-se nisso  alma universal de que  reflexo: a 
razo (com os sentidos) localizada na cabea; a bravura (vontade, emoes mais elevadas) 
localizada no corao; e os apetites inferiores, localizados no ventre [ essa interpretao da 
alma foi influncia multissecular e mantm-se, de certa forma, at hoje  pensar, querer, 
sentir.
O que ocorre, ento,  um permanente conflito, pois a alma humana sofre entre a 
perspectiva da eternidade divina e as estimulaes prazerosas da vida real, num trnsito 
permanente em direo ao conhecimento verdadeiro. A razo  o elemento divino presente 
na alma que, juntamente com o raciocnio, controla os desejos.
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Conceitos como a imortalidade da alma, a relao matria-tempo, o pecado original, os 
graus e funes da alma so derivativos do platonismo, encontrados na corrente do 
pensamento cristo defendida, posteriormente, por Santo Agostinho.
Sugiro a leitura do mito da caverna escrito por Plato, que pode ser encontrado no livro 
VII de A Repblica. Observe durante a leitura a relao entre mundo sensvel e mundo 
inteligvel, entre conhecimento e conhecimento verdadeiro. Pense no significado das 
sombras, da fogueira, do sol e das correntes apresentados no texto.
E agora sim podemos falar brevemente sobre a dimenso poltica do pensamento platnico 
na tentativa de compreender  como ele imaginava ser possvel ao Homem romper as 
correntes e caminhar em direo ao verdadeiro conhecimento. Quem, na estrutura social, 
seria a personalidade ideal para ensinar a governar?
Nesse trabalho, voc perceber que Plato prope um modelo ideal de cidade, tambm 
tripartido, construdo nas bases da diviso do trabalho, de forma que os artesos 
(responsveis pela produo), os soldados (responsveis pela defesa) e os guardies 
(responsveis pela administrao interna) conviveriam num exerccio harmnico de 
funes, exercendo a justia.
Para que essa prtica pudesse se instalar, algumas mudanas deveriam ocorrer na sociedade 
da poca como a diluio da famlia no corpo mais amplo da sociedade, a educao das 
crianas pela cidade, a distribuio do trabalho por aptides, sem distino de sexo. O 
governo supremo deveria ser exercido por reis-filsofos, escolhidos dentre os guardies que 
se destacassem. Esses indivduos seriam submetidos a provas de patriotismo, resistncia e, 
principalmente, seriam dirigidos num estudo aprofundado e srio, a fim de que atingissem o 
conhecimento das idias at o ponto mais lapidado que permitisse o contato com a idia do 
Bem.
Para Plato, ningum  mau por vontade prpria, mas porque foi
educado de forma inadequada ou por alguma doena corporal que
 afluindo s trs sedes da alma, conforme a que seja atingida por suas espcies diversas, a 
introduzem todos os matizes das formas variadas da acrimnia e de abatimento, da 
temeridade e da covardia, da fugacidade e da preguia de esprito [ (Timeu, p.86)
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Se pudssemos pensar numa psicologia platnica, poderamos uti lizar um modelo que o 
prprio Plato nos oferece quando compara a alma a uma parelha de cavalos conduzidos 
por um cocheiro. O cocheiro simboli za a razo, um dos cavalos simboliza a energia moral 
e o outro simboliza o desejo. Tudo que Plato escreve sobre o funcionamento do 
organismo, sobre as perturbaes psquicas, est de alguma forma ligado a essa idia de 
alma tripartida. Portanto, a construo do conhecimento constitui, para ele, uma 
engrenagem perfeita entre intelecto e emoo, razo e vontade, inteligncia e amor. Leia o 
Timeu e confirme essa idia.
2.3 Sobre Aristteles (384 a.C.-322 a.C.)
Aristteles era da Macednia. Sua famlia era ligada  Medicina e  pesquisa biolgica, 
assim como  vida poltica. Seu pai, Nicmaco, era mdico a servio do rei Amintas. Essas 
caractersticas marcaram sua forma de estudo, seu discurso e seu pensamento.
Chegou a Atenas com aproximadamente 18 anos (em 366 a.C.) com o objetivo de expandir 
seus estudos. Naquele momento Aristteles tinha duas opes: ou seguir o grupo que 
desenvolvia a linha de trabalho do sofista Iscrates ou a Academia de Plato, que oferecia 
uma base para a ao poltica e a investigao em matemtica, na qual ingressou.
Quando Aristteles chegou a Atenas, Plato j estava com 61 anos e encontrava-se na 
Siclia participando de um projeto poltico. Ambos se conheceram um ano depois do 
ingresso de Aristteles na Academia. A permaneceu por vinte anos, s deixando Atenas 
quando Plato morreu.
Na continuao de seu trabalho, aps sua sada da Academia, permaneceu por trs anos na 
sia e mais tarde foi chamado pelo rei Filipe, da Macednia, para ser preceptor de seu filho 
Alexandre. Quando este assume o lugar do pai, assassinado, Aristteles retorna a Atenas e 
funda sua prpria escola  o Liceu (que recebeu esse nome por estar prximo ao templo de 
Apoio Lcio), que se transformou num centro de estudos dedicado especialmente s 
cincias naturais.
Estudiosos afirmam que Aristteles foi o mais genuno discpulo de
Plato. No entanto, ele dizia o seguinte sobre essa relao: Sou amigo
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de Plato, porm mais amigo da verdade. Podemos perceber, ento, que seu pensamento 
no oferecia concordncia integral s teorias platnicas, especialmente porque ele entendia 
que a certeza sobre o significado de um determinado fenmeno necessitava estar apoiada 
em normas organizadas de pensamento. Aristteles aponta para critrios de sistematizao 
que caracterizam seu forte funcionamento intelectual e oferece a base para o 
desenvolvimento do pensamento cientfico posteriormente.
A questo da dicotomia corpo-alma era por ele tratada no sentido de que a alma no poderia 
sobreviver sem um corpo que ela pudesse animar porque ela est, inexoravelmente, ligada 
s funes desse corpo por meio das sensaes, percepes, memrias, etc. Portanto, a alma 
no  entendida como uma substncia angustiada, presa no corpo, lutando para se livrar 
dele para sempre a fim de poder retomar ao seu mundo. Ao contrrio, a alma  o que 
assegura a harmonia das funes vitais.
Em De nima, o prprio Aristteles assim fala:
 no cabe pesquisar se a alma e o corpo so uma s coisa, como no o fazemos quanto  
cera e o sinete, nem de maneira geral, quanto  matria de uma coisa qualquer e aquilo de 
que  matria [ fosse o olho um ser vivo, e a viso seria sua alma: pois a viso  a essncia 
do olho. O olho, de sua parte,  matria da viso, e, faltando a viso no h mais olho, 
seno por homonmia, como um olho de pedra ou um olho desenhado, {. . .3 a alma  no 
sentido primordial, aquilo porque vivemos, percebemos e pensamos [  com razo que 
pensadores tm julgado que a alma no pode existir sem um corpo, nem ser um corpo, pois 
no  um corpo, mas algo do corpo; e essa  a razo por que est em um corpo [ as afeces 
da alma se do com um corpo: a coragem, a doura, o temor, a compaixo, a audcia e 
ainda a alegria, tanto quanto o amor e o dio; pois, ao mesmo tempo que se produzem essas 
determinaes, o corpo experimenta uma modificao.
Aristteles trabalha de modo bastante diferente de Scrates e Plato. Seus escritos so 
sistematizados, tcnicos e classificatrios, O pensamento aristotlico defende que as 
informaes existentes na conscincia foram previamente experimentadas pelos sentidos e 
que o ser humano tem uma
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condio inata para reorganizar essas impresses gravadas pelos sentidos em grupos e 
classes, ou seja, estamos diante da sistematizao da Filosofia que promove a 
transformao do platonismo e caminha em direo ao empirismo e ao naturalismo.
Conforme aponta Gaarder, os 47 registros de Aristteles que sobrevi veram at nossos dias 
so, na verdade, compostos por temas que teriam sido desenvolvidos em aulas, mas parece 
haver registro de 170 ttulos assinados por ele.
Segundo Reale (1991 : 338), os escritos de Aristteles so, priorita riamente, dados 
didticos e podem ser divididos em dois grandes grupos:
os exotricos  compostos na sua maioria em forma dialgica e destinados ao grande 
pblico e os escritos esotricos  que constituam a base da atividade didtica de 
Aristteles e no eram destinados ao pblico, mas sim aos discpulos e, portanto, 
patrimnio exclusivo da Escola.
O primeiro grupo de escritos perdeu-se, existindo somente alguns ttulos e fragmentos 
como Da Retrica, Sobre as idias, Sobre o Bem, Sobre a Alma, Tratado sobre o 
cosmo para Alexandre. Do segundo grupo, que vai tratar da problemtica filosfica e das 
cincias naturais, temos acesso ao conjunto de tratados de lgica como Sobre a 
Interpretao, Refutaes Sofisticas, Primeiros analticos, Segundos analticos. Da 
Filosofia natural temos como exemplo: Fsica, do cu, A gesto e a corrupo, A 
metereologia, etc.
Ligada a essa, h obras relacionadas  Psicolgia como Sobre a alma.
H tambm obras sobre Metafisica, moral, poltica, cincias naturais.
Esses textos transitaram por comentadores gregos, filsofos rabes,
medievais e renascentistas. Atravessaram o tempo e dirigiram pensamentos.
Aristteles nos conduz  idia de Inteligncia, principalmente atravs
de seus estudos de Metafisica  na busca das causas primeiras.
Para ele existem 4 causas que determinam o ser e o devir das coisas:
1) Causa formal  que  a forma ou essncia das coisas: a alma para os animais, as 
relaes formais determinadas para as diferentes formas geomtricas (para a circunferncia, 
por exemplo, o lugar preciso dos pontos eqidistantes de um ponto chamado centro), 
determina a estrutura para os diferentes objetos de arte...
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2) A causa material ou matria  aquilo de que  feita uma
coisa, por exemplo, a matria dos animais so a carne e o osso,
a matria da esfera de bronze  o bronze, da taa de ouro  o
ouro, da esttua de madeira  a madeira, da casa so os tijolos
e o cimento...
3) A causa eficiente ou motora  aquilo de que provm a mudana
e o movimento das coisas. Os pais so a causa eficiente dos filhos,
a vontade  a causa eficiente das vrias aes do homem, o golpe
que dou na bola  a causa eficiente de seu movimento...
4) A causa final  constitui o fim ou o escopo das coisas e das aes. Ela  aquilo em vista 
ou em funo de que cada coisa  ou advm,
e isso, diz Aristteles,  o bem de cada coisa.
Aristteles vai mostrando que o homem, ao reconhecer a realidade,
ordena seu conhecimento em categorias. Ainda do livro de Gaarder (p.
127);
 estabelecemos a diferena entre coisas que so feitas de pedra, coisas de algodo e coisas 
de borracha. Distinguimos coisas vivas de mortas e plantas de animais e de seres 
humanos Aristteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria 
pr ordem nos conceitos dos homens. De fato, ele tambm fundou a cincia da Lgica e 
estabeleceu uma srie de normas rgidas para que concluses ou provas pudessem ser 
consideradas logicamente vlidas [ No seu projeto de colocar ordem na vida, Aristteles 
chama a ateno primeiramente para o fato de que tudo o que ocorre na natureza pode ser 
dividido em dois grupos principais. De um lado, temos as coisas inanimadas, tais como 
pedras, gotas de gua e torres de terra. Essas coisas encerram em si uma potencialidade de 
transformao. Segundo Aristteles, elas s podem se transformar sob a ao de agentes 
externos. De outro lado, temos as criaturas vivas, que possuem dentro de si uma 
potencialidade de transformao.
Aristteles dizia que se no existisse nada de eterno, no poderia
existir nem mesmo o devir.
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Portanto,  mediante esses grupos de conceitos que Aristteles organiza uma compreenso 
sobre a transformao e o devir. Essa idia de mudana, presente no pensamento 
aristotlico,  entedida por meio do ltimo grupo de conceitos que envolve a idia de ato e 
potncia que o prprio conceito de potncia descortina a idia de imperfeio. A potncia  
a capacidade de se tornar ato e gerar nova potncia, apontando para uma vida em cadeia 
associativa na natureza, na qual a transformao e o movimento, necessariamente, levam a 
um elemento primeiro e originador. Esse movimentador primeiro seria Deus.
Segundo Reale (1991 : 337):
Quem indaga as causas e os primeiros princpios, necessariamente deve encontrar Deus: 
Deus , com efeito, a causa e o princpio primeiro por excelncia. Seu pensamento 
desemboca estruturalmente na Teologia, pois leva ao reconhecimento da existncia de um 
ser superior e necessrio, inspirando, no futuro, o pensamento cristo de So Toms de 
Aquino (no sculo XII).
Da mesma forma que Scrates e Plato, Aristteles tambm pretendeu pensar e 
compreender a origem e a essncia das coisas. Temos, no entanto, que os dois primeiros 
eram subjetivos. A maiutica de Scrates e a dicotomia dialtica de Plato so mtodos 
abertos, mas Aristteles quebra esse subjetivismo, encontrando um caminho de regras 
lgicas que buscam concluses corretas.
Se fosse possvel falar numa psicologia aristotlica, poderamos dizer que os estudos 
sobre sensaes e percepes voltam a dar importncia ao corpo como fonte de 
conhecimento. Ao estudar a razo, os sonhos, a memria, os temperamentos etc., o campo 
de estudo sobre o funcionamento interno do homem foi alargado e aprofundado, mostrando 
um sujeito pronto para o exerccio do pensamento, o que ele considera a principal fonte de 
felicidade e virtude. Aristteles morreu no perodo helenista e alguns autores e estudiosos 
afirmam que passaram-se dois mil anos antes que outro pensador comparvel a ele surgisse.
 possvel pensar, como muitos estudiosos, que se Scrates deu ao
homem a Filosofia, Aristteles deu a ele a Cincia.
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